Roberto Lucena – Repórter do Diário de Natal
O juiz da 2ª Vara da Infância e da Juventude, Sérgio Maia,
julgou, nos últimos quatro anos, 308 casos de abuso sexual cometidos contra
menores de idade em Natal. O número pode parecer pequeno se comparado com o
tamanho da população. No entanto, até semana passada, a Delegacia Especializada
de Defesa da Criança e do Adolescente (DCA) instaurou 43 inquéritos e remeteu
35 à Justiça. Os casos se repetem quase que diariamente. Os acusados são, na
maioria das vezes, parentes ou pessoas que têm proximidade e confiança da
vítima. O combate e investigação desse tipo de crime, no Rio Grande do Norte,
são incipientes. Há apenas uma unidade da DCA para atender todo Estado.
O tema voltou à discussão às vésperas do Carnaval desse ano.
No dia 17 de fevereiro, a polícia prendeu o motoboy José Antônio da Silva, 31
anos. Ele é acusado de cometer vários estupros contra menores de idade de ambos
os sexos em diversos bairros da cidade. José Antônio agia à luz do dia e
abusava de suas vítimas no meio da rua. O acusado, que já foi preso outras
vezes pelo mesmo crime, é pai de um casal de filhos. No início desse mês, o
menino completou 12 anos. O pai, preso no Centro de Detenção Provisória (CDP)
do Panatis, não vê o filho desde que foi preso. "Minha vida acabou. No
aniversário do meu filho, não pude dar os parabéns a ele porque estou
preso", disse José Antônio.
Com a mesma aparente tristeza que pronuncia a frase acima, o
acusado conta como agia com as crianças de 8 a 15 anos que ele abusava.
"Eu via a pessoa na rua e não sabia o que acontecia. Alguma coisa me
dominava e eu fazia. Esse problema eu tenho desde 2001. Já pedi ajuda para
resolver e ninguém faz nada. Só me julgam sem saber o que acontece comigo".
José Antônio não conhecia suas vítimas. Na DCA, até sexta-feira passada, 14
meninas e 13 meninos já tinham reconhecido o motoboy como "monstro"
que os violentou.
De acordo com especialistas, o caso de José Antônio é uma
exceção à regra. Segundo o psicólogo Jean Von Hohendorff, as estimativas
apontam que cerca de 80% dos casos de violência sexual são perpetrados por
pessoas que possuem relacionamento próximo com as vítimas. "O vínculo de
confiança que uma criança possui com um adulto pode ser utilizado para o cometimento
de uma agressão, sendo estes vínculos mais presentes entres pessoas
próximas", explica.
Mas o que motiva um ser humano a abusar sexualmente de uma
criança? Para o psicólogo, essa é uma questão ainda sem resposta definitiva e
que vem despertando o interesse da comunidade científica. "Sabemos que
existem certos fatores de risco para a ocorrência da violência sexual contra
crianças: abuso de drogas e alcoolismo, histórico de violência, histórico de
transtornos psicológicos, dificuldades de relacionamentos, dentre outros. Não
podemos pensar em apenas um fator ou motivador do comportamento agressivo, mas
sim, devemos considerar a junção de diferentes fatores devido à complexidade do
assunto".
Alberto Leandro
Especialistas alertam que os pais precisam estar atentos às reações e comportamento das crianças
Especialistas alertam que os pais precisam estar atentos às reações e comportamento das crianças
O juiz Sérgio Maia afirma que a maioria dos réus nega a
autoria do crime ao qual são acusados. "Acredito que mais de 90% dos
acusados nega que tenha cometido o abuso", afirma. Por causa disso, o
magistrado, apesar de estar à frente da 2ª Vara da Infância e da Juventude e
ser o responsável pelo julgamento dos crimes contra dignidade sexual dos
menores de idade, há mais de dez anos, desconhece os motivos que levam os
criminosos a agirem. "Não dá para se aprofundar nesse aspecto. Eles dizem
que foi um momento de fraqueza, culpam a mãe da vítima e dificilmente confessam
o crime", afirma.
A partir de 2009, o combate aos crimes sexuais contra
crianças e adolescentes ganhou um reforço quando o artigo 214-A do Código Penal
entrou em vigor. A Lei define o "estupro de vulnerável" e qualifica o
crime como hediondo. Segundo o artigo, é passível de prisão que varia de 8 a 15
anos aquele que mantiver "conjunção carnal ou praticar outro ato
libidinoso com menor de catorze anos". Para o juiz Sérgio Maia, a Lei foi
um avanço. "Porque antes só era qualificado como estupro o crime contra
mulheres e se houvesse a conjunção carnal. Agora não é mais assim. Houve um
avanço no enquadramento do agressor", afirma.
Outra evolução, segundo o magistrado, também ocorreu em 2009.
Atualmente, as ações contra os criminosos são classificadas como públicas
incondicionadas. "Ou seja, não é necessário que um parente da vítima
denuncie o crime. Esse tipo de violência é de interesse da coletividade e
órgãos como Conselho Tutelar ou Ministério Público podem ser os
denunciantes", diz.
Apesar dos avanços e do número de processos julgados nos
últimos quatro anos, Sérgio Maia afirma que muitos casos não vêm à tona.
Denúncias deixam de ser feitas por vários motivos. A dependência financeira e
emocional que a vítima tem do agressor é um dos principais deles. "Temos
esses 308 casos julgados, mas esse é um número que não dá para mensurar o que
de fato acontece. Sei que isso não é a realidade em nossa cidade. Nos últimos
anos, é verdade que tivemos aumento das denúncias. Mas será que isso ocorre
porque está se cometendo mais crimes ou porque a sociedade está ficando mais
consciente?", questiona.
Denúncias de crimes contra crianças podem ser feitas através
do Disque 100. Na internet, é possível entrar em contato com autoridades no
site ww.disque100.gov.br.
Casos de abuso chegam de todo o Rio Grande do Norte
A menina corre de um lado para outro apontando para os
cartazes fixados nas paredes. Neles, estão retratos em preto e branco de rostos
de homens procurados pela Justiça. "Moço, porque o policial anda com uma
arma na cintura?", pergunta a menina de seis anos ao observar um agente
policial. "Para se defender dos bandidos", responde o repórter. A
menina fica pensativa por um instante e, logo em seguida, volta a correr pelos
corredores do prédio.
A cena foi registrada na Delegacia Especializada de Defesa da
Criança e do Adolescente (DCA). É lá onde crianças como a pequena Jaqueline
[nome fictício] são levadas por pais ou familiares para denunciarem abusos
sexuais sofridos. O ambiente não é agradável e nem de longe lembra o universo
infantil. O prédio localizado no bairro Tirol, há mais de dez anos, abriga a
unidade policial sem nunca ter passado por reformas ou melhorias. As histórias
ouvidas ali são carregadas de sofrimento e dor. Histórias como a de Jaqueline.
"Ela foi passar uns dias na casa do pai dela. O sogro dele já um senhor de
idade. Foi ele quem abusou da minha filha. Mostrava o pênis para ela e ficava
apalpando as partes íntimas. Mandava que ela sentasse no colo dele com as
pernas abertas. Graças a Deus nós descobrimos e agora eu vim denunciar esse
monstro", relata a mãe de Jaqueline, moradora do bairro Nossa Senhora da
Apresentação.
Os pais de Jaqueline são separados. Às vezes, a menina vai
para casa do pai onde fica alguns dias. Na última ida, ocorrida no início de
fevereiro, Jaqueline quis voltar para casa da mãe. Sem dizer o motivo, chorava
e pedia que a mãe fosse buscá-la. Ao retornar para casa, contou os momentos de
pavor que viveu. "Eu perguntei a ela o que tinha acontecido. Começou a chorar
e me disse tudo. Fiquei desesperada e por isso procurei a delegacia", diz
a mãe.
O titular da DCA, delegado Correia Júnior, ouve histórias
parecidas todos os dias. À frente da delegacia desde outubro do ano passado,
ele diz que o "estupro de vulnerável" é o crime mais comum cometido
contra crianças e adolescentes. "Infelizmente essa é a nossa realidade. No
geral, os crimes contra a dignidade sexual lideram nossas estatísticas. O mais
grave é que, geralmente, parentes ou pessoas próximas da vítima estão envolvidas.
Seja como agressor ou acobertando este", relata.
Só existe uma unidade da DCA para atender os 167 municípios
do Rio Grande do Norte. A estrutura, segundo o delegado, está longe de ser a
ideal. "Mas é o que temos e assim vamos trabalhando. Chega demanda de
municípios de todas as regiões. Os delegados das outras cidades são orientados
a também apurarem esses crimes", diz.
A psicóloga forense Mariza Sarava Guerra é a responsável
pelos laudos psicológicos de adultos e crianças expedidos pelo Itep. Laudos
infantis são realizados apenas em Natal. No momento, o Itep tem uma equipe de
três psicólogas e uma única sala de atendimento para crianças. "O laudo
serve para atestar o crime. Não é necessário que a vítima apresente lesão
corporal nem indício de conjunção carnal para comprovar o estupro", diz a
psicóloga.
Bate-papo
Jean Von Hohendorff » fpsicólogo e mestre UFRS
"Pode ser alguém acima de qualquer suspeita"
É possível reconhecer um possível agressor de crianças? Há
algum comportamento suspeito que mereça atenção especial?
Dizer que existe um perfil de agressores é muito arriscado,
tendo em vista a singularidade existente entre eles. Porém, estudiosos indicam
que, ao contrário do que a população em geral acredita, um agressor sexual pode
ser qualquer pessoa, até mesmo aquelas que são consideradas acima de qualquer
suspeita. Existe o mito de que os agressores são "monstros" que serão
facilmente reconhecidos devido a certos comportamentos ou a sua aparência
física. O que se sabe é que crianças costumam se aproximar de pessoas que as
tratam com gentileza e demonstram interesse por elas. Devido a isso, muitos
agressores acabam se valendo de comportamentos gentis para com as crianças com
o objetivo de conquistar sua confiança e, assim, cometer um ato de violência.
É possível dizer que um agressor pode ter sido abusado quando
criança? Ou não há relação direta entre uma coisa e outra?
Não há evidências de uma relação direta. Os resultados de
pesquisas indicam que apenas uma parcela de agressores foi vitimizado na
infância.
É possível dizer que isso é uma doença? Ou a pedofilia não se
enquadra como "doença"?
A pedofilia é um transtorno mental. Para serem considerados
como pedófilos, os agressores devem possuir certas características, o que
chamamos de critérios diagnósticos. Uma pessoa com o diagnóstico de pedofilia é
aquela que ao longo de, no mínimo seis meses, teve fantasias sexuais
recorrentes, impulsos sexuais ou comportamentos envolvendo atividade sexual com
uma (ou mais de uma) criança com idade inferior a 13 anos. Para o diagnóstico
de pedofilia, o indivíduo deve ter, no mínimo, 16 anos e ser pelo menos cinco
anos mais velho do que a criança ou crianças. É importante esclarecer, então,
que nem todos os agressores sexuais de crianças são pedófilos, uma vez que é
preciso atender aos critérios diagnósticos do transtorno. Um pedófilo, conforme
os critérios diagnósticos, pode nunca ter cometido uma violência sexual, mas
possuir fantasias sexuais com crianças.
E qual o tratamento para essas pessoas?
O tratamento da pedofilia e, também, de agressores sexuais é
um desafio atual. Isso ocorre por conta da dificuldade de adesão dos agressores
ao tratamento. Alguns estudos já foram publicados indicando a dificuldade em
obter êxito com o tratamento de agressores. Dentre as estratégias de tratamento
que são pesquisadas, destacam-se a castração química, o monitoramento contínuo
e a psicoterapia cognitivo-comportamental.
E a vítima? Quais danos pode sofrer após um abuso sexual?
Não existe uma síndrome, ou seja, um conjunto de sintomas que
seja particular à vivência da violência sexual. Os danos serão de acordo com o
histórico prévio da criança - por exemplo, uma criança que possui histórico de
sintomas depressivos tenderá a apresentar um diagnóstico de transtorno
depressivo. Além disso, é necessário levar em consideração as circunstâncias
nas quais a violência ocorreu. Pesquisas indicam que fatores como a proximidade
entre vítimas e agressores, a reação dos familiares diante da revelação e o
tempo de exposição à violência são mediadores do impacto.
O que deve ser feito com essa criança?
O primeiro passo é notificar a ocorrência da violência sexual
ao conselho tutelar ou outro órgão da rede de proteção. Por meio dessa
notificação será garantido que essa criança passe pelos exames médicos
necessários, que o(a) agressor(a) seja afastado e que a criança seja
encaminhada para tratamento psicológico. Além disso, é importante o auxílio à
família no sentido de orientá-la quanto ao manejo com a criança.
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