Isaac Lira
Margareth Grillo
Repórteres
Carla Ubarana era "também um laranja" no
esquema de desvios de recursos na Divisão de Precatórios no Tribunal de Justiça
do Rio Grande do Norte. Essa é a conclusão a que se chega após a leitura dos
manuscritos - uma espécie de "Diário da Prisão" - produzidos pela
ex-chefe da Divisão de Precatórios do TJRN durante o tempo em que esteve presa.
Carla afirma que era apenas uma das operadoras de um esquema liderado por
outros envolvidos e, em algumas passagens do manuscrito, também detalha o
funcionamento das fraudes e como os recursos eram repassados "em
espécie" para os "cabeças" do esquema.
Não existem, segundo as informações levantadas
pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE acerca do diário da acusada, rastros no
sistema financeiro do repasse de parte do dinheiro desviado para os demais
envolvidos. Operações bancárias como depósito em conta corrente, que ficariam
registradas, não eram o modus operandi escolhido para a destinação final do
produto do desvio. Segundo relato de Carla Ubarana, "o dinheiro era
entregue em espécie".
Folha de Pernambuco
Carla Ubarana e George Leal estão colaborando com as investigações do Ministério Público
Carla Ubarana e George Leal estão colaborando com as investigações do Ministério Público
O diário de Carla Ubarana foi escrito durante todo o tempo em
que a acusada esteve presa. Pessoas próximas e que conviveram com a acusada
durante a prisão afirmam que os manuscritos permaneciam, na maior parte do
tempo, com Carla e que detalhes acerca das fraudes perpetuadas dentro do
Tribunal estão descritas nesses papéis. Trata-se de um caderno e também de
páginas soltas.
O motivo para produzir essa espécie de "memórias do
cárcere" era medo. Carla e George dizem ter recebido ameaças dentro da
prisão. Por conta disso, passaram a deixar uma prova documental de seus
testemunhos, no caso de sofrerem algum atentado.
Pessoas próximas à investigação consideram as ameaças como
"difusas", ou seja, ainda sem materialidade suficiente para indicar um
suspeito. Contudo, o aparato de segurança colocado à disposição do casal, 24
horas, é característico de pessoas em perigo. Carla e George temem pela própria
vida.
O nome de outros envolvidos e, possivelmente, a quantidade de
dinheiro repassado a cada um deles ainda é algo a ser confirmado oficialmente
pela ex-chefe da divisão de precatórios do TJRN. Uma das condições do termo de
delação premiada de Carla Ubarana é apontar, com provas, os demais integrantes
do esquema que ainda não tenham sido identificados nas investigações. George
Leal, de acordo com fontes, se negou a assinar o termo de colaboração.
O conteúdo dos depoimentos prestados por Carla
Ubarana sob delação premiada ainda é mantido em sigilo. Tanto o Ministério
Público quanto a defesa, representada pelo advogado Marcos Braga, e a família
dos acusados se negam a prestar quaisquer informações relativas ao depoimento
de Carla Ubarana ou sobre os futuros encontros destinados à coleta de
informações.
A expectativa é que na próxima sexta-feira, em audiência
marcada na 7a. Vara Criminal, o casal confirmem em juízo tudo o que foi dito ao
Ministério Público Estadual.
"Laranjão" entre as outras laranjas
Durante os 28 dias em que ficou efetivamente
recolhida no sistema prisional, Carla Ubarana só saiu de sua cela para o banho
de sol uma única vez, segundo a direção do Pavilhão Feminino do Complexo
Penitenciário João Chaves. E por insistência da direção. Todo o tempo, Carla
ficava recolhida à sua cela. No período, a ex-chefe da Divisão de Precatórios do
Tribunal de Justiça do RN teve duas internações hospitalares, a maior
delas de 17 dias.
Segundo fontes da intimidade de Carla Ubarana
ouvidas pela TRIBUNA DO NORTE, ela estava em estado depressivo. Não se
conformava em "pagar sozinha, junto com o marido, pelas fraudes",
quando existiam outros envolvidos. No retorno à prisão, após sua última
internação no Hospital do Coração, segundo essa mesma fonte, Carla ingeriu, de
uma vez, várias cápsulas de um tranquilizante, numa tentativa de suicídio. A
essa pessoa, ouvida pela TN, Carla chegou a dizer que ela e o marido prepararam
um testamento, onde beneficiam os filhos.
"Ela dizia que, caso acontecesse alguma
coisa, os filhos estariam protegidos", afirmou a fonte. O testamento
teria sido feito, dada as ameaças recebidas. O casal já tinha relatado a vários
interlocutores ter recebido ameaças de morte. Segundo a fonte do jornal, Carla
afirmou, por várias vezes, que era apenas "um laranjão" a serviço
"dos grandes", junto com outros laranjas, e que "não era justo
que estivesse presa e os mandantes livres". Ela também disse que "os
delitos foram encomendados e que ela tinha como provar tudo".
Acusada de liderar o esquema de desvios no
pagamento dos precatórios, Carla Ubarana foi presa no dia 31 de janeiro, em Recife.
Em Natal, dividiu uma das celas do pavilhão feminino do Complexo Penitenciário
DR João Chaves com a espanhola Lourdes Cañadas (acusada de tráfico) e com a
empresária Noélia Araújo (acusada de fraudes). Somente nas últimas semanas é
que se mostrou disposta a colaborar nas investigações, entregando documentos,
que contém além de nomes, contas bancárias, que comprovam quais eram os
favorecidos pelo esquema e como era 'esquentado o dinheiro'.
Carla disse que "tinha esperança de recuperar tudo,
mostrando a autoria dos fatos" aos promotores públicos, mas a
possibilidade de manter os bens está afastada e é, inclusive, citada no termo
de colaboração que ela assinou com o Ministério Público Estadual. George Leal,
o marido de Carla, também foi beneficiado pelo acordo para a prisão domiciliar
do casal, mas ainda não assinou o termo de colaboração.
No último sábado em que ficou no presídio, Carla recebeu a
visita da mãe, a quem entregou uma sacola com a maior parte das roupas. Algumas
peças, no entanto, ficaram no presídio para que fossem doadas às detentas.
Dois dos investigados pelo Ministério Público ainda continuam
presos, Carlos Eduardo Palhares de Carvalho que dividia cela com George Leal, e
Carlos Alberto Fasanaro Júnior. Na sexta-feira, 23, a reportagem da TRIBUNA DO
NORTE tentou ouvir os dois, mas eles se recusaram a falar, alegando que tinham
orientação dos advogados para não dar entrevistas.
Adriano Abreu

Lourdes Cañanas, a companheira de cela de Carla Ubarana
"Ela temia porque corria risco mesmo"
Bate-papo - Lourdes Cañadas
Você dividia a cela com Carla Ubarana. Como era o
comportamento dela?
Ela passava muito tempo dormindo. Dizia que não suportava a
prisão. Falava que queria sair, que não aguentava mais e chorava muito. Eu
sempre dizia pra ela se conformar, porque estava presa e não ia sair daqui
voando. Nós orávamos juntas. Eu procurava dar força, mas ela estava
inconformada. Não sei se aceitou esses conselhos.
Ela tinha contato com outras presas?
Não. Ela preferia ficar na cela, sem contato com outras
presas, até mesmo pela condição. Ela estava bem debilitada. Ela tinha um ferimento,
na altura da virilha, que supurava e eu ajudava a fazer os curativos, todos os
dias. Ela também não se alimentava direito. Não comia nada. Às vezes, tomava
leite e comia maça e miojo que eu fazia pra ela. Eu a ajudava em tudo.
E, na última semana, você notou alguma mudança no
comportamento dela?
Quando ela voltou do hospital era outra pessoa. Ficava o
tempo todo falando que a família estava em perigo e temia pelos filhos,
sobretudo. Queria liberá-los. Falou muito nisso. Teve momento que pensei que era
delírio, mas não era. Ela temia porque corria risco mesmo.
Ela falou se sentia ameaçada?
Estava ameaçada sim. Ela dizia que se falasse a verdade iam
querer matá-la.
Ela falou de onde viam essas ameaças?
Das pessoas que eram os mandantes das fraudes. E essas
ameaças atingiam seus filhos. Então ela estava com muito medo. Às vezes tremia
ao ver na televisão alguma notícia.
Carla falou em suicídio?
Ela falava o tempo todo em morte. Disse mesmo que queria morrer.
Eu ficava vigiando, durante a noite para ela não se matar. Na última semana,
depois que voltou do hospital, ela ficou dopada de medicamento.
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