De Sérgio Vilar para O Poti
Dizem que crescemos e os brinquedos apenas mudam de tamanho.
Ou que os bem idosos voltam à idade infantil, carente de cuidados. Quando
mestre Sérvulo pede pra brincar de novo, a brincadeira é coisa séria. É questão
de preservação da memória dos mais antigos. E brincar de quebra-cabeça não
ajuda, não. Quando se fala em mestre Sérvulo, o coração, a mente e o corpo
ainda estão tinindo, mesmo aos 84 anos. Ele só quer perpetuar o folclore: o
congo, o bambelô e o fandango de São Gonçalo do Amarante. Apesar de ainda
escapulir aqui e acolá para uma farra, o nome hoje mais importante da cultura
popular de São Gonçalo escapou de sérios problemas de saúde. E quando ele
morrer será enterrado também os grupos comandados por ele.
Mestre Sérvulo é discípulo de uma linhagem de artistas
populares riquíssimos à história cultural potiguar. O Cabocolinho de
Ceará-Mirim, o Fandango e a Chegança de Canguaretama, a dança do Maneiro Pau de
Portalegre e outras manifestações legítimas se juntam a uma gama preciosa e
cada vez mais rara de folguedos remanescentes no Estado potiguar. Se o
folclorista Deífilo Gurgel disse que o Rio Grande do Norte detém o folclore
mais rico do Brasil, São Gonçalo é a cidade mais pungente nesse sentido. E se a
romanceira Militana Salustino morreu assistida por uma pensão vitalícia da
prefeitura e com a comenda máxima da cultura popular entregue pelo então
presidente Lula, Sérvulo Teixeira pede apenas para brincar.
"Nunca mais me chamaram para nada. Minha brincadeira
está esquecida. E é só chamar que eu vou. Hoje o Congo e o Bambelô tão comigo.
Mas faz tempo que ninguém se apresenta. E outra: num tem quem fique à frente.
Boto meu sobrinho pra mestre do Congo, mas ele não sabe e é muito disperso.
Quando eu morrer num tem quem tome conta". Sérvulo vive modestamente, como
é de praxe a vida dos mestres do folclore potiguar. Recebe um salário mínimo
pelo Funrural, pelo tempo de serviço na agricultura. Pelos mais de 70 anos
dedicados ao folclore, apenas o reconhecimento de umou outro estudioso. E
talvez padeça do mesmo fim do irmão, Lucas, mestre do Congo de Saiote de São
Gonçalo, que morreu à míngua.
Congo sem saia
Sérvulo aprendeu com os primeiros mestres de que se tem
notícia em São Gonçalo. Já aos 13 anos, estava enturmado com Pedro Guajiru,
mestre do Boi de Reis e conhecedor nato das tradições populares. Sérvulo tentou
montar um grupo de Chegança, na comunidade da Sombra, mas não vingou por falta
de gente. Depois conheceu João Menino, a quem Deífilo Gurgel disse ter visto um
"alumbramento" ou classificou como das apresentações mais bonitas que
já viu em vida. Com João Menino, Sérvulo aprendeu as cantorias e passos do
Congo de Saiote. Mas haveria um divisor de água na apresentação no Mercado da
Cidade Alta, onde hoje funciona o Banco do Brasil, a convite do então prefeito
Djalma Maranhão.
"A gente em cima do palco, se ajuntou estudante pra ver
a gente. E você sabe que estudante é tudo sem vergonha, né? Eles tudo rente ao
palanque. Aí nós lá se apresentando e quando viram queJoão Mãozinha tava sem
cueca, tiraram o coro dele". Pouco depois do episódio, mestre João Menino
morreria. "O Congo de Saiote passou um a dois anos parado, aí eu assumi e
num quis mais esse negócio de saiote não. Doutor Deífilo aconselhou eu
permanecer, mas num quis não. Muitos, principalmente os meninos, não queriam
vestir. E já pensou homem ir brincar de saia?". Sérvulo desvirtuou, de
certa forma, a tradição e passou a brincar o Congo com calçola. E nisso se vão
quatro décadas.
Fandango
O Fandango, Sérvulo aprendeu com outro ícone da cultura
popular sãogonçalense: mestre Atanásio Salustino, pai de Dona Militana. Hoje, o
Fandango de São Gonçalo é o folguedo mais ameaçado. Está parado há anos. E só
quem conhece as jornadas que dão ritmo à dança é mestre Sérvulo e João Viana,
ambos já idosos e de saúde comprometida. O grupo Bambelô da Alegria é cria do
próprio mestre Sérvulo, que aprendeu com Antônio Basílio, que brincava
informalmente pelos redores do distrito de Santo Antônio do Barreiro, onde
Sérvulo morahoje. "Ele nunca formou grupo. Aí tive a ideia de juntar e
começar a brincar. Já faz 24 anos", lembra o mestre, orgulhoso.
300 anos de tradição
São Gonçalo do Amarante tem pouco mais de 300 anos de
história. É provável que Sérvulo Teixeira seja de uma segunda geração de
mestres brincantes do folclore. Pedro Guajiru, João Menino e Atanásio Salustino
ensinaram a arte dos folguedos a seus discípulos. Poucos estão vivos. Poucos
souberam aprender. E poucos são os jovens interessados em repassar o
aprendizado.
A exceção é o Boi de Reis do mestre Dedé Veríssimo, 64.
Apesar do pouco caso do poder público, o grupo se mantém ativo e cheio de
jovens entusiasmados com o folguedo - um dos mais tradicionais do Rio Grande do
Norte, já com 105 anos de tradição. Mestre Dedé também aprendeu com Pedro
Guajiru aos 13 anos, que por sua vez herdou o Boi do mestre Atanásio.
Seu Dedé diz que mestre Atanásio aprendeu o Boi no oiteiro.
Foi lá também onde Dona Militana ouvia os romances cantados pelo pai e se
tornou a maior romanceira do Brasil. João Menino herdou o mesmo Boi de Pedro
Guajiru, quando assistia o folguedo no Sítio Breu - considerado hoje o berço da
cultura popular são gonçalense. Neste Boi ele brincou de dama, galante, birico
e todas as "patentes" até chegar ao comando, já há 30 anos.
Herança
"Quando Pedro Guajiru morreu, se passaram seis anos e
ninguém quis o Boi; nem mesmo os filhos dele. Então eu peguei. Os mais idosos
se afastaram e hoje estou com uma equipe nova, de 10, 12, 17 anos. E não
fazemos feio em canto nenhum. Somos até motivo de orgulho ao Estado, admirados
por aonde a gente vai". O Boi de Dedé Veríssimo e o Pastoril de Dona
Joaquina são os dois grupos de São Gonçalo mais itinerantes e colecionadores de
elogios.
Grupos podem desaparecer
Ainda assim, uma reclamação comum entre os mestres Sérvulo e
Dedé é o apoio da prefeitura aos grupos mais novos em detrimento aos
tradicionais. Estudioso do folclore são gonçalense, Lenilton Lima diz que estes
grupos novos integram a fundação cultural do município. "Veja que os dois
reclamam da mesma coisa. E eles precisam. A história mostra isso. Quando não
têm incentivos, os grupos morrem mais cedo ou mais tarde".
Lenilton disse ainda ter presenciado uma homenagem a mestre
Dedé em Zabelê, na Paraíba, "a coisa mais linda do mundo, e que nem de
longe ele viu igual em sua terra. E o estudioso no folclore, Emílson Medeiros,
disse nunca ter visto Boi tão bonito quanto esse". E completa: "O
pastoril de Dona Joaquina também é elogiado. O Congo e o Bambelô de mestre
Sérvulo, se tivesse oportunidade de viajar, também seria".
O grupo de Dedé Veríssimo foi a Recife em cansativa viagem de
microônibus em regime de "bate e volta", se apresentou, recebeu
elogios e o cachê prometido não veio. "Não foi a prefeitura daqui, mas ela
intermediou e poderia resolver o problema. É um desrespeito constante",
lamenta o mestre. A sede do grupo foi conseguida com os R$ 10 mil do edital do
Ministério da Cultura. "Outros gastaram de outra forma; eu comprei a sede.
E hoje somos dos poucos grupos com sede para ensaiar", se orgulha.
Enterro sem romance
O descaso com os mestres da cultura popular em São Gonçalo
também recaiu sobre Militana Salustino. A romanceira morreu aos 84 anos. Passou
anos desassistida de tudo, menos dos olhares do folclorista Deífilo Gurgel, que
a descobriu e colheu material suficiente para lhe dar a notoriedade merecida,
inclusive com gravação de CD triplo pelo projeto Nação Potiguar. No fim da
vida, a prefeitura de São Gonçalo concedeu pensão vitalícia à romanceira, de R$
1,5 mil. Mas durou apenas sete meses, até sua morte. E já no fim da vida, o
dinheiro serviu mesmo para pagar a série de exames, plano de saúde e
internações que a romanceira se submeteu no período.
A filha, Benedita Nascimento, 51, lamentou que sequero
enterro merecido ela teve. "Se a pensão durasse mais dois meses teríamos
condição de dar a ela um túmulo mais condizente com a pessoa que ela foi".
E trouxe à tona uma reclamação no mínimo estranha: "Quando íamos pegar
recebíamos R$ 1,3 mil, às vezes R$ 1,4 mil. Nunca entendi esse desconto".
Ainda assim elogiou a iniciativa municipal e lembrava das idas ao Hospital
Santa Catarina, na Zona Norte de Natal quando o quadro de saúde se agravava.
"Tinha de pagar táxi duas a três vezes na semana e saía muito caro pra
gente. Ajudou. Mas já que o prefeito prometeu um banheiro no quarto dela e não
fez, podia dar um túmulo de vergonha".
Fórum tracará panorama cultural de SGA
Com o tema Construindo Uma Política Publica de Cultura, o
Fórum Municipal de Cultura chega à terceira edição no dia 13 de abril, no
Teatro Municipal Poti Cavalcanti (Rua Alexandre Cavalcanti), das 8h às 17h. O
evento é aberto à sociedade, com entrada franca, e tem a promoção e coordenação
do Grupo PeduBreu e a da República das Artes. Segundo Lenilton Lima, que
integra a comissão executiva, o principal objetivo é subsidiar as discussões e
princípios para a elaboração, consolidação e fortalecimento do Plano Municipal,
Conselho Municipal de Política Cultural e Fundo Municipal de incentivo a
cultura. "O fórum quer trazer políticas públicas e que a prefeitura some.
Não queremos embate", frisou.
Segundo ele, Dona Militana levou o nome de São Gonçalo ao
conhecimento nacional e outros grupos e mestres podem representar a cidade, que
pode ser uma referência, caso haja uma parceria. "Os gestores que estão
por vir precisam ver a cultura com outros olhos. Precisam valorizar os grupos,
a memória, a resistência. Não existepolítica de cultura para São Gonçalo, que
tem tanto potencial de servir de espelho para outras cidades", destacou.
Nesta nova edição, o Fórum Municipal terá como intuito
avaliar as diretrizes traçadas no 1° e 2° Fórum (2005 e 2010), como também na
primeira Conferência de Cultura em 2010. Dentro destas propostas e novas metas
para o desenvolvimento Político Cultural em São Gonçalo, será solicitado à
gestão municipal a assinatura do Acordo de Cooperação Federativa do Sistema
Nacional de Cultura (SNC), assumindo o compromisso de criar e implantar, até 31
de dezembro de 2012, pelo menos cinco componentes básicos: Secretaria de
Cultura ou órgão equivalente, Conselho Municipal de Política Cultural, Conferência
Municipal de Cultura, Plano Municipal de Cultura e Sistema Municipal de
Financiamento da Cultura.
Fortalecimento
"Estes instrumentos fortaleceram institucionalmente as
políticas culturais da União, Estados e Municípios tendo em sua estrutura
básica a participação da sociedade civil articulada na garantia dedireitos
culturais, conforme estabelece a Constituição Brasileira de 1988", explica
Lenilton. Durante o Fórum serão realizadas apresentações culturais, por
artistas do município, e haverá ainda um espaço para exposições fotográficas.
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