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sábado, 11 de fevereiro de 2012

União vai doar terreno para trabalhadores informais de Ponta Negra

O artesão Elias Augusto da Silva costuma chegar às 9h da manhã para trabalhar na praia de Ponta Negra. Do calçadão da Avenida Erivan França, à beira-mar, ele só sai às 16h, depois de contabilizar o lucro do dia, fruto da venda de brincos, pulseiras e tatuagens temporárias. Seu rosto é marcado pelo trabalho suado no dia-a-dia e pela quentura do sol a sol na praia mais famosa da capital. "Seria muito bom que tivéssemos uma feirinha, um espaço pra podermos trabalhar sem perseguição de fiscais", diz ele. O sonho de Elias parece estar próximo de se realizar. Os trabalhadores informais de Ponta Negra comemoraram o que ficou definido ontem na audiência pública realizada no Ministério Público Estadual (MPE). Após um protesto silencioso em frente à sede do MP, eles conseguiram da Superintendência do Patrimônio da União (SPU) a garantia de doação de dois terrenos existentes na orla para montagem de um espaço destinado à comercialização de seus produtos.

Os terrenos pertencem à União e o maior deles fica localizado entre o Hotel Pousada Sol e a Barraca do Caranguejo. "Para que seja formalizada a doação e que a área seja concedida aos trabalhadores informais, é preciso que o município de Natal elabore um projeto com dotação orçamentária", explicou o chefe de projetos especiais da SPU, Neilor Afonso Barbosa, que apresentou a sugestão durante a audiência. Esses espaços já eram objeto de interesse da Associação dos Trabalhadores Informais de Ponta Negra (Atipon), que aguardava a decisão e formalização de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que fizesse o ordenamento dos mais de 1.200 pessoas que trabalham na informalidade na praia mais famosa da capital, 378 deles associados à Atipon.

Além do comércio formal e regular, apenas os quiosques e locatários de cadeiras possuem licença da prefeitura para funcionar normalmente em Ponta Negra, inclusive com inspeções periódicas de fiscalização e da Vigilância Sanitária. "O sonho do trabalhador informal é conquistar o direito de trabalhar e que possa ter a obrigação de cuidar da praia. O trabalhador informal tem o interesse em colaborar, mas precisamos ter o poder público do nosso lado", salientou Marcos Martins, presidente da Atipon.

A promotora de justiça de Defesa do Meio Ambiente, Gilka da Mata, que conduziu a audiência com várias secretarias da prefeitura, Procuradoria da União e a Atipon, comemorou o anúncio do chefe de projetos especiais, e solicitou da associação a realização de uma espécie de pedido para inscrição de todos os trabalhadores informais que trabalham em Ponta Negra, lista que deverá ser encaminhada às secretarias municipais de Serviços Urbanos (Semsur) e de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb). À Semsur coube a tarefa de fazer a elaboração do projeto para uso dessa área que deverá ser doada pela SPU. "Nossa ideia é trabalhar com experiências bem sucedidas em outras cidades, outros estados e até fora do país, que conseguir fazer com que o poder público alcance esse comércio ambulante. No momento em que o município autoriza isso, coloca condições para o exercício do comércio ambulante, estabelecendo inclusive um local de trabalho", disse a promotora Gilka da Mata.

Sobre a construção desse espaço, o titular da Semsur, Luiz Antônio Lopes, presente na audiência, afirmou: "Sabemos que o município tem dificuldades em arcar com aporte de recursos próprios, mas já procuramos o novo secretário de turismo de Natal, Murilo Barros, na tentativa de fazer um bom projeto para enviar para o Ministério das Cidades e aguardar a aprovação de um projeto nesse sentido". 

Pirataria, problema da informalidade

Um dos maiores entraves à consolidação de um projeto de ordenamento urbano e uso de áreas específicas para a atuação de trabalhadores informais, vendedores ambulantes e artesãos é que, muitos deles, trabalham com a venda de CDs e DVDs piratas, o que é ilegal. Outros se dedicam a vender comida na praia, o que nem sempre é feito com supervisão da Vigilância Sanitária, e outra parcela significativa vende óculos de sol sem certificação contra proteção ultravioleta.

"No que tange aos informais que trabalham com CDs e DVDs piratas, assim como os que trabalham com óculos de sol sem garantia, temos noção da problemática e sabemos que é crime. Vimos pedindo à prefeitura cursos de qualificação profissional para capacitar essas pessoas para que mudem de ramo", argumentou Marcos Martins, presidente da Atipon, que recebeu a garantia de representantes da Semtas de que será feito um novo cadastramento dos trabalhadores que atuam na praia. No caso de quem trabalha com alimentos, a intenção é que a prefeitura forme as pessoas em cursos sobre manipulação de alimentos e manuseio de comida, salienta Marcos Martins.

O anúncio de um espaço destinado aos trabalhadores informais já foi considerado uma batalha vencida na guerra que por anos se travou entre ambulantes e fiscais da prefeitura. O temor era que os trabalhadores informais da praia fossem obrigados a deixar o calçadão e a praia já que, quando um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi firmado em 2005, eles não participaram da audiência porque não tinham representação formal. Agora eles estão determinados a colaborar no que for preciso para construir um espaço para esse tipo de comércio informal.

Após a audiência no MP, os trabalhadores informais fizeram festa em frente à sede do MP.

Sérgio Henrique Santos - Diário de Natal 

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